IMITANDO A CRISTO NOS MOMENTOS DIFÍCEIS

Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. 2 Coríntios 4.7-9.

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No dia 31 de Outubro, o cristão comemora o aniversário da reforma protestante. Evento importante, que marcou um século crucial na história da igreja, onde aconteceram mudanças importantes na forma de viver e expressar a fé cristã, onde se lutou (verbal e fisicamente) pelas verdades do Evangelho e da Palavra de Deus. Uma luta também pela volta do culto em comunidade.

A Bíblia passou a ser traduzida para vários idiomas e voltou a ser lida pelas pessoas nos mais diferentes países da Europa. Diferentes igrejas protestantes surgiram para quebrar a imposição da imperial igreja católica romana. Depois de séculos de escuridão, o povo da Europa começa a experimentar a verdade de um Deus que salva, liberta, restaura e dá uma nova vida pela graça, for meio da fé. Tudo isso aconteceu no século XVI.

Mas tudo isso só aconteceu, porque neste século passaram muitas pessoas das quais o mundo não era digno. Pessoas que lutaram, enfrentando muita oposição e hostilidade, mas que apesar disso mudaram radicalmente o seu século e a sua geração. Um bom exemplo disso foi Martinho Lutero, um dos primeiros reformadores protestantes. E ao lado dele, o grande pensador, estudioso, teólogo, pastor João Calvino se destaca como um dos grandes de Deus do século XVI.

1) Calvino e seu trabalho – Diferente de Martinho Lutero, João Calvino não enfrentou tantos conflitos na área espiritual e emocional, não enfrentou oposição de líderes católicos e políticos, nem teve que se esconder para não ser morto como Lutero. Calvino não viveu estes momentos dramáticos. Então, o que podemos destacar da vida de João Calvino para ele ser um homem do qual esse mundo não era digno?

Além das suas obras, que expunham um pensamento teológico claro e profundo a respeito da grandeza e soberania de Deus, vale destacar seu trabalho fantástico como educador quando fundou a Academia de Genebra, que na época formou alunos em direito, medicina e teologia. Essa Academia de Genebra chegou a ter 1500 alunos em suas classes, em sua maioria estrangeiros no século XVI.

Podemos destacar também a visão que Calvino tinha de preparar missionários e pastores na sua Academia e enviá-los para diferentes países da Europa. Alguns deles inclusive foram enviados pelo próprio Calvino para o Brasil (os primeiros missionários cristãos do nosso país).

Também podemos falar do trabalho incansável de expor a Bíblia, fazendo parte da rotina pesada dele pregar 3 vezes por semana na catedral de Saint Pierre, onde pessoas sedentas lotavam (a ponto de não ter lugar) os bancos para ouvir da Palavra de Deus.

Tudo isso, suas obras teológicas monumentais, a Academia de Genebra, as propostas educacionais, treinamento de pastores e missionários, pensamentos teológicos que continuam até hoje influenciando cristãos do mundo todo, fazem dele de fato um homem do qual esse mundo não era digno. Mas será que ele causaria um impacto entre nós, cristãos do século 21?

2) Calvino e suas lutas – Em um determinado ponto do seu ministério, Calvino foi literalmente expulso do seu próprio púlpito por estar pregando a Bíblia de forma séria. Alguns amigos de Calvino foram punidos fisicamente por protegê-lo. Muitas fofocas surgiram na época. As difamações iam do seu ministério até sua família, tudo para tentar destruir essa vontade enorme de pregar a Bíblia, para um povo sedento por Deus.

Se parasse por aí, ele já seria um homem digno de muita honra, mas além dessas dificuldades que enfrentou por causa do ministério, por causa do zelo de pregar a Palavra de Deus, Calvino passou por muitas dificuldades pessoais.

3) Calvino e sua saúde – Calvino sempre foi um homem muito frágil fisicamente e constantemente enfrentava sérios problemas de saúde. Ele passou 20 anos de sua vida sem descanso de uma enxaqueca. Muitas vezes se refugiava num quarto escuro e silencioso pra tentar amenizar essas dores, mas nada que conseguisse eliminar 100% das dores que nunca davam trégua. Muitas páginas dos comentários, capítulos das Institutas, muitos dos sermões e devocionais foram estudados e escritos debaixo de fortes dores.

Além da constante dor de cabeça, João Calvino sofria de artrite, gota e malária, mas mesmo com todas essas coisas, Calvino continuava firme e nunca reclamou com ninguém e muito menos usou essas coisas como desculpa para não servir a Deus estudando, ensinando, escrevendo, discipulando e pregando.

Durante muito anos, Calvino enfrentou fortes dores por causa de pedras nos rins. Ele também tinha um problema sério de hemorroida, o que fazia com que ele não aguentasse cavalgar por muito tempo. Mas por causa do ministério, ele tinha que viajar centenas de quilômetros para se encontrar com líderes, participar de reuniões e conferências e sempre os fazia sem reclamar.

Calvino também tinha problemas de intestino e estômago. Comia com sérias restrições e dietas específicas, tinha um corpo muito frágil e para piorar a sua condição física, durante 5 anos a tuberculose o enfraqueceu ainda mais.

4) Calvino e sua família – Depois de dois anos casado com Idelete, eles tiveram um filho, Jacques. Por ser o primeiro, era um filho muito desejado. Mas ele nasceu prematuro e viveu apenas por duas semanas. A morte do seu primeiro filho foi um momento muito duro para ele e sua esposa. Com grande tristeza nesse momento de sua vida, Calvino escreveu, “Deus é pai e sabe o que é bom para seus filhos… Ele levou meu menino”.

Um ano depois, Idelete espera agora uma menina. A alegria de ter uma filha diminui a tristeza da morte do primeiro filho, mas ao nascer, aquela menina morre. No ano seguinte, nasce uma terceira criança que também não sobrevive e morre ao nascer.

Com a morte de seus três filhos, Calvino não teve herdeiros físicos. Ele que desejava tanto ter um filho seu com Idelete, consolava-se ao pensar que Deus levou seus filhos. Poucos anos depois, sua amada esposa morre. Nove anos depois de se casar com Idelete, ela morre. E com isso, Calvino escreve, “fui privado da melhor companhia da minha vida”.

Essas foram algumas das dificuldades, pressões e provações que Calvino passou. O interessante é que não se vê em nenhum registro da história; murmuração, questionamentos, reclamações, insatisfações, desânimo, depressão em relação a essas dificuldades que Calvino enfrentou. Ele continuou ensinando, pregando, discipulando, aconselhando, dando conferências, escrevendo comentários, livros, devocionais… Apesar de toda a debilidade emocional e física, ele continuou idealizando a Academia de Genebra e pregando na catedral de Saint Pierre. Ele não desanimou, nem se entregou. Continuou servindo a Deus até seus últimos dias.

5) Calvino e seu exemplo (Paulo) – Ele via Paulo como exemplo, tendo passado por prisões, açoites, perseguições, sofrimentos físicos (dentre outras coisas) e ainda assim glorificava a Deus em tudo. Calvino se identifica muito com o que Paulo escreve a respeito das suas experiências, especialmente em 2 Coríntios 4.1-9.

Note esses 3 versículos 2 Coríntios 4.7-9. “Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós. De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos”. Calvino comenta assim:

– Esse tesouro = Cristo dentro de nós.

– Vasos de barro = um corpo frágil, sujeito a doenças, limitações.

– Este poder = um poder à nossa disposição.

Somos pressionados pelas pressões, irritações, coisas pequenas que surgem no dia a dia. Aquele boleto que não temos saldo para pagar, ou aquele trabalho gigante que está no fim e o computador quebra, ou aquela prova que parece impossível de pagar.

Ficamos perplexos diante da reação de algumas pessoas, tristes com o resultado de conversas ou posts no Facebook. Ficamos perplexos por aquela resposta que não vem, que precisamos saber para tomar decisões importantes, o que nos deixa inseguros, com medo, com dúvidas.

Mas não apenas coisas do dia a dia, mas talvez perseguições por sermos cristãos, ou ouvindo algumas ofensas que vem para nos diminuir na frente de outros, pessoas que dizem que nos amam, mas do nada pisam em nós. Podemos receber críticas severas e injustas, palavras mentirosas para tentar abater o que cremos, mentiras até mesmo a nosso respeito, fofocas que muitas vezes não temos nem como nos defender, quando nossa palavra não parece suficiente e muitas vezes temos que ficar calados. Pessoas que puxam nosso tapete porque querem crescer às nossas custas.

E por último Paulo fala de sermos derrubados (abatidos), palavra que no grego dá origem à nossa palavra “catástrofe”. Situações difíceis de suportar, algo que acontece do nada e que nos pega de surpresa.

Conclusão – Paulo diz que esse vaso de barro tem um valor inestimável dentro dele. “De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; derrubados, mas não destruídos”.

Nós cristãos temos esse poder dentro de nós; é sobrenatural, vem direto do Criador do Universo, resistente a qualquer coisa que venha contra, por isso não ficamos angustiados, nem desamparados, nem destruídos, nem desanimados. Por isso nossa atitude não deve expressar a nossa força (reclamação, angústia, desespero, depressão), mas sim expressar a força de Deus em nós. Quantas vezes nós reagimos igual ou pior do que os não-cristãos? Quantas vezes nos irritamos com coisas pequenas, ficamos de cara feia, às vezes nos descontrolamos. Porque essas coisas pequenas da vida nos atingem?

Deus nos deu um poder sobrenatural, que é Cristo vivendo dentro de nós, mas preferimos usar as nossas forças, o nosso jeito de fazer as coisas, e não usamos o poder que Deus nos deu, que habita dentro de nós.

Calvino reagia no poder de Deus diante das dificuldades em sua vida, servindo, ensinando, pregando, realizando a obra, mesmo na dificuldade. Não precisamos lembrar de Calvino como um homem do qual o mundo não era digno pela suas obras e livros, mas como um servo de Deus, que diante das inúmeras dificuldades ministeriais, pessoais e físicas que o enfraqueceram, ele ainda assim reagiu de forma a glorificar a Deus, de forma que toda a glória foi à Deus, por tudo! Isso faz de Calvino, como Paulo, um imitador de Cristo, a quem devemos imitar.

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