Na Bíblia, o nascer de novo, em muitas de suas versões, significa de fato, o nascer do alto. A palavra grega anothen traduzida por: de novo, na verdade deve ser vertida por: “do alto” ou “de cima”, uma vez que, este novo nascimento, se refere a uma geração de cima, do alto, do céu, isto é: de Deus.

Neste mundo terreno, segundo Jesus, há dois tipos de nascimento. Um é da carne e o outro do espírito. Os dois, entretanto, são miraculosos. O nascimento da carne é aquele que nos faz membros da raça humana. É um nascimento terreno, que tem as características cá de baixo, pois vem chamuscado pela morte. O do espírito, por outro lado, é um novo nascimento, e vem do alto, promovido pelo próprio Deus.

O nascimento da carne é um milagre físico que nós já nos acostumamos com ele. Todos nós achamos que isso é algo normal. Na verdade é um fato bem natural, contudo, continua sendo um grande mistério da vida,quando se percebe o óvulo que foi fecundado por um espermatozóide se tornando num feto que cresce, nasce e aparece como uma pessoa ou uma alma vivente em desenvolvimento.

Por mais natural que seja a geração de um ser humano, vejo sempre algo sobrenatural na vida, na organização biológica, na emocionalidade e na inteligência deste sujeito. Para mim, a geração de um bebê, ainda que seja alguma coisa comum, na verdade, é uma realidade descomunal. É misteriosa e miraculosa.

O milagre da vida carnal, contudo, vem sempre governado por um eu egoísta, possessivo, dominador, caótico, contaminado pela rebelião do pecado e da morte. Já nascemos rebelados, revoltados e revolucionários, fazendo parte de uma raça dura, incrédula e mentirosa, que tem como sentença uma guilhotina invisível apontada para o pescoço e a lápide oculta pendurada no peito.

A vida no perímetro da carne, ainda que seja muito boa, para muitos, é, na realidade, finita e uma grande incógnita. Afinal, o que viemos fazer aqui nesta terra? Além do que, o prazo de validade é curto demais e o futuro é nebuloso ao extremo. Qual o significado de nossa existência neste planeta? O que nos espera depois da morte? Como será nossa identidade além da sepultura? Será que a vida acaba na tumba, ou haverá outra vida depois da morte?

Este efetivo humano é passageiro e estas perguntas angustiantes que nos asfixiam, têm sido responsáveis pela elaboração de filosofias exóticas e religiões exibidas em busca de uma alternativa para esse aparente beco sem saída.

A morte deixa a gente refém da dúvida e com uma pergunta depois de sua visita. O que existe no avesso desta vida? Por mais lúcidos que possamos ser, o fato é que, não há muita luz no final do túnel. A “existência” é um enigma.

Quem esteve do outro lado desta vida terrena e depois voltou para nos dar as suas impressões sobre o mundo pós-morte? Há muitas especulações neste terreno, mas tudo indica que, só Jesus Cristo pode garantir algo significativo para aquietar a nossa alma inquiridora, pois apenas ele saiu desse poço com um corpo físico.

Por falar em inquérito, que tal indagar sobre o nascimento do alto? O que de fato quer dizer novo nascimento? Por que Jesus insistiu com o religioso VIP, que ele precisava nascer do alto? Este assunto tem alguma importância para nós mortais?

Parece que a insistência de Jesus sobre o tema é essencial para a vida com significado aqui e agora, bem como, inevitável para o porvir. Ele nos assegura que há dois nascimentos e que precisamos de ambos. Jesus foi categórico: O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. João 3.6, e acrescentou que é imperioso nascer de novo ou nascer do alto.

Todos nós nascemos neste mundo pertencentes à raça de Adão e, por isso mesmo, membros de uma espécie caída e caiada. Somos reles pecadores e indignos do reino de Deus, mas fingimos ser fidalgos. Investimos muito na aparência, porém, “quem vê cara, não vê coração”. Precisamos de um diagnóstico preciso.

A raça de Adão é topetuda por natureza. Há uma crista de arrogância até mesmo nos atos de humildade. A aparência é tudo na passarela. Por mais despojado que seja o sujeito da ação, ele sempre requer uma coroa de visibilidade pública. Ninguém gosta de viver à sombra no ostracismo. O brilho nos ofusca mesmo em dias nubladas e sob torrenciais tempestades. Somos viciados em notoriedade.

A estirpe de Adão é gulosa por elogios e vive em busca de aplausos, afagos e um bom reconhecimento. Mas, é aqui que mora um grande problema. Quando essa turma é elogiada fica envaidecida e se acha a tal. Todavia, se não percebe a luz dos holofotes na testa, a “coisa” enfurece, tornando-se deprimida com a síndrome da “coitadinha”. Não há nada mais bizarro do que o descontentamento adâmico nas entrelinhas. Adão sempre se torna irritante no pódio e fica irritado no porão.

O orgulho inchará o velho Adão quando for ovacionado e o deprimirá ao ser criticado. O problema do nascimento da carne é o carnegão da carnalidade que vai sempre exigir uma boa correspondência às suas expectativas narcisistas. Por isso, a alternativa do alto tem como objetivo demolir as prerrogativas da autoestima vaidosa.

O nascimento do alto começa com o esvaziamento de Cristo. Se o pecado vem promovendo a exaltação do ser humano como se fosse Deus, a salvação do pecado propõe a vinda de Deus ao mundo como homem. Um Deus absoluto e infinito contido numa criatura totalmente presa ao pó da terra é no mínimo um absurdo.

Mas a encarnação do Verbo Divino não é o fim da picada. O Criador, na pele da criatura, usando fraldas, com certeza, é uma loucura colossal para nossa mente finita, porém, um Deus crucificado é uma total insanidade. Foi neste contexto de doidices que Paulo afirmou: Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. 1 Coríntios 1:18.

Aqui temos a loucura confrontada com o poder de Deus. De um lado, a cruz é sandice na mente dos que querem entender a grandeza da graça, e, do outro lado, ela vem revelar o poder do amor incondicional de Abba aos indignos pecadores.

Gosto de ler Brennan Manning e me alegro quando leio: “Deus ama o que não possui amor, o que não ama, o que não é amado. Ele não detecta o que é agradável, interessante, atraente e responde a isso em Seu favor. Na verdade, Ele não responde a nada. O Pai de Jesus é uma fonte. Ele age; Ele não reage. Ele inicia o amor. Ele é amor sem motivo”. Logo, esse amor sem causa é a causa do nascimento do alto.

A cruz onde Cristo foi crucificado é a expressão máxima desse amor furioso. É amor passional do Pai, sim, ao nos atrair ao seu Filho amado, a fim de sermos incluídos no Seu sacrifício, e, deste modo, desconstruídos da arrogância, bem como do aparente “amor bondoso” que se expressa pela tirania da “troca de favores”.

O nascimento do alto tem a ver com a mudança radical de nossa paternidade, que determina a razão do verdadeiro amor. Esse amor incondicional é a herança de uma nova filiação gerada no céu pela vida que nasce da morte.

O nascimento da carne nos capacita a amarmos condicionalmente. O amor terreno é um jogo de interesses, um negócio, ou, como diz Wayne Jacobsen, uma “troca de favores”. Neste caso, nós amamos os que são amáveis. Há sempre um pré-requisito favorável apoiando uma possível permuta vantajosa no jogo. Se você estiver adequado às minhas conveniências, então podemos fazer esse negócio “afetivo”.

Contudo, o nascimento do alto nos coloca numa outra família, onde o amor é de cima e está acima de qualquer favorecimento pessoal. É amor sem troco, nem “truco”. Os filhos de Abba amam somente com o amor do alto derramado nos seus corações. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado. Romanos 5:5.

O alto valor do nascimento do alto é o amor incondicional que é derramado incondicionalmente no coração dos filhos de Deus. Esse amor sem fronteiras e sem qualquer predicado do sujeito amado é um milagre de cima e um mistério encimando tudo o que nos rodeia. Assim, nós saímos da casa do penhor onde vivíamos devendo favores e entramos na Casa do Amor para usufruir do banquete da aceitação eterna.

Esta saída do território do medo para vivermos a liberdade, na liberdade dos filhos de Abba, não tem preço a pagar. O Cordeiro já liquidou esta fatura e nós fomos convidados a participar desta festa da alforria como membros da família de cima.

Quando ouvi num DVD um mascate da fé pondo preço no produto doado pela graça plena e cobrando uma conta liquidada pela misericórdia divina, fiquei indignado e rebarbei do outro lado da tela: isto é picaretagem da grossa. Por favor, não fiquem intimidados com esses cobradores legalistas e moralistas que invadem o campo da liberdade cristã, porque o nosso alvará de soltura não tem prazo de validade.

Nossa identidade de filhos de Abba foi construída na certeza de um amor sem limites lá de cima e sem qualquer motivação cá de baixo. Veja neste amor inalterável o formato de sua certidão de nascimento no cartório do alto. Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo.1 João 3:1.

Creia que o Pai o ama e que o seu nome na Casa de seu Pai é: Amado(a). Celebre sua identidade de cima com os companheiros de jornada desse alto valor do seu nascimento do alto. Viva! Amados de Abba! Viva! Viva! Viva!

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